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Aqui, no OBSERVANTES, têm lugar privilegiado:

A poesia, os sonhos e a utopia. A critica incisiva às realidades concretas de Portugal e do mundo baseadas na verdade constatada e só nela. "A verdade nunca é injusta; pode magoar, mas não deixa ferida". (Eduardo Girão)

Aqui, no OBSERVANTES, têm lugar privilegiado:

A poesia, os sonhos e a utopia. A critica incisiva às realidades concretas de Portugal e do mundo baseadas na verdade constatada e só nela. "A verdade nunca é injusta; pode magoar, mas não deixa ferida". (Eduardo Girão)

18.10.08

ACASOS IMPROVÁVEIS ???


João Chamiço

Um homem entrou num restaurante para almoçar. Apenas por mero acaso se foi sentar a uma mesa ao lado da qual almoçavam duas mulheres ainda jovens que conversavam entusiasticamente.

O homem reparou nelas discretamente antes de se sentar.
Passou depois a escrevinhar uns rabiscos numa folha branca. Mesmo sem querer acabou por ir ouvindo palavra aqui palavra ali sem se ralar muito em entender o que ouvia.
As duas amigas tinham o ar eufórico de quem se divertia ao máximo com as histórias que iam relatando uma à outra, e deixavam transparecer o enorme gozo que lhes dava o assunto ou os assuntos que ali vinham à baila.
O homem, embora os seus pensamentos voassem por aí sem norte e pouco estivesse ligando à amena cavaqueira delas, sentia-se contagiado por aquela alegria inusitada e imprevista.
As coisas continuaram assim por mais um lapso indeterminado de tempo.
Subitamente, ao homem pareceu-lhe ouvir algo que lhe pareceu “blog”.
Terei ouvido bem? Sussurrou ele.
Ficou mais atento. Agora queria ouvir mais. Agora o tema passara a ser mais difícil de ignorar.
As duas jovens mulheres congeminavam ideias, referiam-se aos conteúdos e ao erotismo sã que usavam nos seus blogs de estimação e aos comentários ali deixados sobretudo pelos amigos virtuais homens que muito as divertiam. O homem da mesa ao lado, cada vez mais contagiado por aquela cena magnífica também já sorria. Felizmente que o sorriso é algo contagiante sem ser doença, e que ainda não paga imposto.
Mas pouco a pouco tudo começava a mudar. O personagem homem começava a ficar algo perturbado, algo nervoso.
Aquela prosa não lhe era de todo desconhecida. Ele fazia um esforço imenso na tentativa de se lembrar de algo que lhe fornecesse uma pista, ainda que ténue fosse, que o levasse ao cerne do que se passava ali, mas nada. Na sua mente apenas uma cor branquíssima teimava em se manter, não deixando espaço para nenhuma réstia de imaginação. Os próprios rabiscos que havia começado pararam por ali.
Diz o ditado que;
 
 “não há bem que não se acabe, nem mal que para sempre dure”,
 
 por issomesmo, uma simples frase chegaria para de imediato virar tudo do avesso:
 
 “Ali no meu cantinho (blog) sinto-me em paz”.
 
 -- Mas, teria eu ouvido bem? O homem passou subitamente de um estado de alguma perturbação para um nítido estado de angústia. Ficou quedo como uma estátua, o seu semblante tornou-se pálido e a testa franzida. As mãos ficaram tolhidas e as pernas tremiam-lhe como varas verdes.
As mulheres continuaram. Ele já não sabia distinguir se eram elas que eram agora mais explícitas, ou se ele, por estar mais atento agora, as coisas faziam outro sentido. Não fora o turbilhão de dúvidas que lhe varriam o cérebro e que lhe travavam as certezas que lhe pareciam ser, e tudo seria muito mais fácil de decifrar.
-- Acalma-te companheiro, dizia ele para consigo. Acalma-te que a solução virá.
De repente, num último assomo de lucidez, o homem levou a mão ao bolso, tirou dele um marcador, e pôs-se a escrever algo na toalha de papel que estava sobre a mesa. Era a primeira estrofe de um soneto.
Ergueu ligeiramente a toalha de um dos lados para que as mulheres pudessem ler o que escrevera.
As duas olharam, leram calmamente, como quem aprecia uma deliciosa sobremesa, esboçaram um ligeiro sorriso, tiraram os olhos da estrofe e continuaram alegres como antes.
-- Ora toma lá para não seres atrevido. Era novamente a voz da consciência em reprimenda.
Porém, uma das mulheres, apenas uma delas, calou-se subitamente adoptando um ar transtornado. Rodou vertiginosamente o pescoço, serrou os seus belos olhos violentamente, brandiu a cabeça durante longos segundos tentando agitar as ideias. Era como se receasse rever algum desses fantasmas que vêm às vezes do nosso passado mais longínquo para nos atormentar.
A mulher abriu calmamente a bolsa que havia pendurado nas costas da cadeira, retirou uma caneta e um pequeno bloco, escreveu algo na primeira folha perante o ar abismado da amiga que nada entendia, virou o pedaço de papel na direcção do homem que o leu com tal sofreguidão que teve de voltar atrás por duas vezes. Na pequena folha de papel estavam agora inscritos os dois tercetos que perfazem a última estrofe do soneto.
 
P. S. Nada disto aconteceu senão na imaginação do autor, mas será que era assim tão improvável?????
 
João Chamiço