Sábado, 10 de Maio de 2008

A TÍTULO PÓSTOMO

Um dia, quando eu percorria ainda os meus primeiros e tenros anos, caminhávamos, eu e o meu pai, pelos caminhos de terra esburacados pela erosão das enxurradas.

Umas vezes íamos lado a lado, de mão dada, e outras vezes eu corria aos ziguezagues circundando os sobreiros vestidos de fato novo depois da última tirada de cortiça, e vinha rodopiando como um pião até reencontrar a sua mão firme que me fazia sentir seguro.

O velho caminho por onde seguíamos devia estar ali há vários séculos, e muitas centenas de carroças e carros de bois o haviam percorrido em sucessivas levas, mas era “ a cavalo nas botas” que nós o calcorreávamos naquele dia.

Estávamos num daqueles dias de verão em que as frondosas sombras do arvoredo se mostram ineficazes na sua tarefa de atenuar a canícula que nos cobria de suor.

 

- Daqui a meia hora chove!

 

Olhei espantado para o céu percorrendo todo o imenso horizonte tentando avistar alguma nuvem mais negra que sustentasse aquela exclamação peremptória do meu pai.

Não era porém a primeira vez que isto acontecia, e em todas as outras a “profecia” se cumpriu.

Não foi preciso esperar meia hora. Passados uns vinte minutos, a trovoada que se anunciara atingia o seu auge, e dos céus desabava agora um dilúvio, ao mesmo tempo que intermináveis descargas eléctricas se punham em fúria e percorriam ameaçadoramente os astros descarregando aqui e ali a sua cólera sobre as árvores que se lhe deparavam pelo caminho.

Não tínhamos nem sequer um guarda-chuva, por isso, restavam-nos duas opções: ficar ali no descampado deixando encharcar-nos os ossos até à medula, ou acoitar-nos sob as grossas pernadas de uma árvore qualquer.

 

- Nunca de abrigues da chuva debaixo de um sobreiro! São as árvores mais perigosas que existem em caso de trovoada.

Outro recado enigmático que ouvi do meu pai naquele dia, porque, eis que mal as palavras eram ainda ditas, e já um enorme sobreiro desabava ferido de morte por um poderoso raio que o atingiu ali a escassos metros de nós.

- Debaixo de um carvalho vá que não vá, mas debaixo de um sobreiro nunca.

 

Mal tive tempo para ter medo, mas algumas lágrimas saltaram dos meus pequenos olhos.

Mas junto do meu pai sentia-me tão seguro que me parecia que nada, nem mesmo uma poderosa faísca me poderia atingir.

Foi provavelmente a primeira vez que tive consciência da falta que nos faz um pai.

 

Hoje, tive sérias dificuldades em dissimular o choro que me inundava por dentro, porque na sua partida para aquela que será a sua viagem derradeira, tomei de novo consciência da falta que nos faz um pai em qualquer altura da nossa vida.

 

João Chamiço

2008-05-08

 

sinto-me: Enlutado
publicado por João Chamiço às 01:30
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