Sábado, 3 de Maio de 2008

CRIANÇAS DE BAGDAD

Minha mãe, vela sempre por mim,
E não permitas que a guerra venha.
Mas se a guerra vier, mesmo assim,
Sem que ninguém haja que a detenha,
Ampara-me no teu terno abraço
E esconde o meu rosto em teu regaço.
 
Não deixes a guerra a sós comigo
Nem por um breve instante sequer,
Faz do teu colo o meu abrigo.
Se a louca tragédia acontecer
E a fúria das canhões nos ceifar,
Envolto em teu manto vou voar.
 
Antes morrer do que ficar só,
Se o dilúvio infernal das bombas
Transformar em escombros e pó;
As casas, os abrigos e as sombras;
E das mulheres e das crianças
Só sobrarem escassas lembranças.
 
Não me deixes ficar soterrado
Que tanto me assusta a escuridão;
E o pavor de ficar rodeado
Por cadáveres em multidão;
Porque o ribombar que se empanturra
Traz a morte vã, que nos procura.
 
Se eu fosse titã, os venceria,
Aos dementes senhores da guerra
Possuidores de toda a Terra;
Já que, de certeza que no dia
Em que o petróleo se há-de esgotar;
Lhes sobrarão razões p’ra matar.
 
 
Duvido que alguém fosse capaz de pensar como uma criança de Bagdad que aguardava em desespero impotente pela deflagração do primeiro míssil de uma guerra que se anunciava como certa.
Qual será a dimensão do tormento de uma criança que adivinha a morte perante o anunciar sistemático de uma tragédia desta dimensão?
 
A Invasão do Iraque em 2003 iniciou-se a 20 de Março através de uma aliança entre os Estados Unidos da América, Reino Unido e algumas outras nações (unidade conhecida como a Coligação). Iniciada a partir do Kuwait a ofensiva terrestre, depois de uma série de ataques aéreos com mísseis e bombas a Bagdad e arredores, ter aberto o caminho às tropas no terreno.
Desde então, contam-se em largos milhares as vítimas de um lado e doutro desta crueldade. As crianças não são excepção.
sinto-me: Com vergonha deste mundo
música: Marcha fúnebre
publicado por João Chamiço às 00:45
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3 comentários:
De Café com Natas a 3 de Maio de 2008 às 00:56
E dizem-se eles os "defensores" da Terra...
Emocionei-me ao ler o teu poema. Está lá tudo, só não sente quem quiser fechar os olhos...
Beijinho
De João Chamiço a 3 de Maio de 2008 às 01:12
Ainda me sobram tristezas, para além das que aqui tentei espelhar. Ainda não tinha tido a coragem de partilhar convosco estas mágoas, mas surgiu um desafio ao qual não resisti. Grato pelas vossas simpáticas visitas.

João Chamiço
De Maria João Brito de Sousa a 3 de Maio de 2008 às 01:53
Não João. Não gosto mesmo nada do que está a acontecer às crianças de Bagdad, mas gostei, e muito, da forma como tu conseguiste vestir-lhes a pele. Estranhamente, tive frio. Ainda tenho frio, como essa criança que, acima de tudo, receia a solidão entre os cadáveres.
Se alguma coisa puder fazer parar esta louca guerra, será só e tão só a consciencialização colectiva e o transbordar deste sentimento de repulsa que vai tomando conta de alguns de nós.
Sejamos contra a guerra! Quanto mais não seja, pelas "Crianças de Bagdad"!
Abraço... com frio.

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